História da cerveja

A história da cerveja tem início há aproximadamente 9.000 anos na Mesopotâmia, onde os sumérios passaram a cultivar e a se alimentar de grãos. Depois do pão, a cerveja foi acidentalmente descoberta através da fermentação espontânea de cereais ou da própria massa de pão exposta à água. Nessa época, as mulheres eram responsáveis pela fabricação e distribuição da cerveja, que passou a ser uma bebida bastante consumida e valorizada pelos povos da Antiguidade.

A cerveja era tida como uma bebida divina e oferecida frequentemente aos deuses cultuados. Sumérios, babilônios e gregos deixaram diversas provas arqueológicas que apontam tradições religiosas e produtivas relacionadas à cerveja. O Código Hammurabi (conjunto de leis dos babilônios), por exemplo, exposto no Museu do Louvre em Paris, determinava não só regras para a fabricação de cerveja de boa qualidade, mas também a quantidade diária de cerveja permitida para cada casta da sociedade.

As primeiras cervejas que surgiram eram muito diferentes das cervejas que conhecemos hoje. Como o trigo era o melhor cereal para fabricação de pães devido à grande quantidade de glúten, ele era também o cereal mais utilizado na fabricação de cervejas. Além disso, era bastante habitual a adição de uvas e tâmaras ao mosto, pois era percebido que essas frutas aceleravam o processo de fabricação da bebida (já que suas cascas traziam leveduras e bactérias que conduziam à fermentação). O teor alcoólico desses produtos era bem baixo, em torno de 2,0 ou 3,0% e frequentemente eram adicionados às cervejas diversas ervas, raízes e frutos, como alecrim, anis, canela, zimbro, gengibre, mel, avelãs e muitos outros, além de serem fermentados espontaneamente.

A partir do século V entramos na Idade Média e foi nesse longo período, que se estendeu até o século XVI, que a cerveja teve sua grande ascensão. Os principais responsáveis por essa expansão foram os monges, que levaram a produção de cerveja aos mosteiros. Estes funcionavam como hotéis para viajantes e a cerveja era produzida e servida internamente aos hóspedes.

Além dessa finalidade, a cerveja também era produzida para os períodos de jejum dos monges: somente o consumo de líquidos era permitido durante esse período e, nesse caso, a cerveja funcionava como alimento para os religiosos – afinal, cerveja é pão líquido!

Nessa fase histórica, a cerveja começou a tomar um perfil sensorial mais parecido com o que temos hoje. O lúpulo ganhou maior importância com a descoberta das suas propriedades aromáticas e bacteriostáticas. Mosteiros de países como Bélgica, Suíça, Alemanha e Holanda deixaram para a atualidade diversas receitas de cervejas que até hoje são produzidas de forma fiel ou com modificações, contribuindo intensamente para o desenvolvimento de diferentes estilos de cervejas. Essas cervejas eram produzidas (fermentadas) à temperatura ambiente e deram origem à família de cervejas que chamamos de Ales – ou cervejas de alta fermentação.

Com o passar do tempo e a chegada da Era Moderna, as descobertas tecnológicas propiciaram uma grande evolução na produção cervejeira. O desenvolvimento da máquina a vapor em 1700, do termômetro em 1742 e, principalmente, da refrigeração artificial em 1859, por Carl Von Linde, revolucionaram os estilos de cervejas produzidos até então. A produção artificial de frio proporcionou a fabricação e expansão de produções esporádicas somente durante o inverno, quando a temperatura ambiente era mais baixa.

No século XX passamos por um período de globalização e massificação de consumo, quando as cervejas tipo American Lagers deixaram de lado muitos outros estilos complexos de cervejas. Felizmente, nos últimos anos temos um movimento contrário de Renascimento da Cerveja Artesanal, cujo objetivo é trazer de volta para o consumidor o prazer de apreciar uma boa cerveja, revivendo histórias, estilos e sabores.

Kathia Zanatta

Sommelière de Cervejas,
Mestre Cervejeira e
Diretora do Instituto da Cerveja Brasil